5 recomendações (e mais uma) a observar na descrição de obras de arte


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Nota introdutória

O presente artigo é uma tradução e adaptação do trabalho que Susan Anable apresentou na Conferência "Museums and the Web"[1] no ano de 2001.

Descrições visuais

Desenvolver a qualidade das descrições visuais é uma tarefa morosa que deve ser feita cuidadosamente por pessoas que escrevam bem e que tenham conhecimentos na área da edição.

Na altura da criação do Virtual Museum Tour, não havia instruções disponíveis. Com a preparação de aproximadamente 100 descrições visuais foi desenvolvido um processo padrão. Este processo está resumido nas seis Recomendações que se seguem e que poderão ser aplicadas noutros projectos da Web que envolvam imagens de obras de arte.

–Susan Anable

Recomendação Um: Seja Objetivo

A única função de uma descrição visual é descrever a aparência de uma obra de arte. Resumindo, deverá simplesmente responder à questão: como é o objeto? As descrições devem evitar quaisquer interpretações analíticas ou emotivas. Por outras palavras, não devem suscitar perguntas como: o que quer dizer? ou o que é que acha?. As descrições ajudam os visitantes a visualizar um objeto, fornecendo um contexto para outras informações disponíveis: outra obra, antecedente histórico, o estilo do artista ou o comentário dos críticos. Ao combinar esta informação concreta com uma descrição objectiva, os visitantes da Web ficam suficientemente informados para fazer uma análise pessoal ou conseguir ter a sua própria reação emotiva.

No caso de personagens retratadas, numa pintura ou em qualquer outra obra de arte, a objetividade também deve ser aplicada. Apesar de ser conveniente descrever a sua aparência vestuário e ações, as descrições visuais não devem esforçar-se por explicar as suas motivações ou sentimentos, mesmo que estes estejam implícitos nos gestos ou no contexto. Se as emoções das personagens são óbvias na obra de arte, então serão provavelmente também notórios na descrição visual.

Neste exemplo, a descrição foi escrita sem referências à emoção, apesar do estado de espírito implícito na pintura estar perceptível.

“…O corpo da rapariga está voltado para o seu lado esquerdo, enquanto que a cabeça e o olhar estão virados para o seu lado direito. Parte do cabelo castanho está puxado para trás até meio das costas. Tem sobrancelhas fartas, olhos escuros e faces avermelhadas. A boca é pequena e os lábios estão fechados. Os braços estão estendidos e as mãos com os dedos entrelaçados repousam nos seus joelhos …”

Pintura a óleo em tela de William Adolphe Bouguereau (1895) com o título The song of Nigtingale

Figura 1: William Adolphe Bouguereau (1825-1905), Francês, The song of the Nigtingale, 1895, pintura a óleo em tela, 55 x 35 polegadas, Oferta do Senhor Robert Badenhop, 1954.

Finalmente, e porque o gosto artístico varia consoante a pessoa, as descrições visuais não devem conter juízos de valor sobre a qualidade da obra de arte, nem da habilidade do artista que a criou.

Recomendação Dois: Seja Breve

Apesar do tamanho das descrições visuais variar consoante a peça de arte que está a ser descrita, elas devem ser tão concisas quanto possível. Nalgumas montagens, as descrições visuais são apresentadas como nas gravações áudio lidas por um narrador. Outras vezes, são fornecidas em texto que os próprios visitantes têm de ler. Em qualquer dos casos, dado que as descrições extremamente longas se tornam cansativas, estas devem ser limitadas de 250 a 300 palavras. Dependendo do contexto, as descrições visuais devem ser acompanhadas por um catálogo com informação sobre a obra de arte contendo informação como: o nome do artista, a data de nascimento e de morte, o título da obra, os materiais utilizados e as dimensões. Estas informações não serão incluídas na contagem total das palavras.

Para uma economia de palavras mais eficaz, exclua frases redundantes como “de forma retangular” ou “de cor azul”. Em vez disso, utilize simplesmente “retangular” ou “azul”. Do mesmo modo, evite afirmações óbvias tais como “ela usa um colar ao pescoço” ou “luvas nas mãos”.

Recomendação Três: Seja Descritivo

As descrições visuais devem utilizar vocabulário amplo de terminologia viva para descrever as múltiplas caraterísticas dos objetos de arte.

Alguns termos comuns estão categorizados em baixo.

As formas podem ser descritas como quadradas, cubóides, retangulares, lisas, direitas, circulares, esféricas, cilíndricas, curvilíneas, arredondadas, triangulares, cónicas, piramidais, angulares, irregulares, denticulares, inclinadas, diagonais, horizontais e verticais. Estas palavras podem ser utilizadas não só para identificar a forma global do objeto, mas também para descrever os desenhos geométricos do seu interior. Evite palavras que impliquem ação, exceto se realmente o objeto se move; por exemplo, “curvado” é preferível a “curvando”. Também não se devem usar termos coloquiais como “contorcimento” ou “ziguezague”.

O tamanho pode ser descrito como pequeno, minúsculo, baixo, miniatura, grande, alto, monumental, grosso, delgado, estreito, largo, em tamanho natural, de dimensões exatas, em grande escala e em pequena escala. As dimensões dos objetos, fornecidas no catálogo, informarão os visitantes do seu tamanho real.

A textura pode ser descrita como lisa, acetinada, grossa, granulada, áspera, usada, desbotada, coçada, gretada, rota, ondulada, canelada, padronizada, listrada, às pintas e picotada.

A cor pode ser descrita como intensa, nítida, brilhante, clara, escura, apagada, pálida, desmaiada, sólida ou mesclada. Não há necessidade em evitar referenciar cores, no pressuposto que não tem sentido para os visitantes cegos. Em primeiro lugar, as descrições serão usadas por pessoas sem dificuldades visuais. Segundo, muitas das pessoas que agora são cegas já viram e conseguem recordar cores. Terceiro, por vezes as cores têm um significado simbólico nas obras de arte. Mas frases interpretativas como “warm gold” (dourado caloroso) ou “red angry” (vermelho zangado) não devem ser usadas.

A composição ou a disposição dos elementos numa obra pode ser descrita como: em baixo, em cima, acima, abaixo, paralelo, perpendicular, em primeiro plano ou em plano de fundo e à esquerda ou à direita.

Quando se faz referência a posições relativas, descrever os objetos da perspetiva do observador, exceto quando se refere à esquerda ou à direita de uma personagem pintada numa obra.

A técnica artística pode ser descrita como realista, abstrata, não natural, simplificada, detalhada, precisa, imprecisa, mal definida, borrada, salpicada, pincelada ou marcada.

Recomendação Quatro: Seja Lógico

As descrições visuais devem descrever objetos segundo uma sequência lógica de modo a que haja uma boa compreensão.

As descrições devem começar por uma apreciação genérica do objeto e daquilo que retrata. De acordo com o tipo de objeto em questão, pode ser conveniente mencionar no início a sua cor e textura da superfície e, eventualmente, a sua construção. A seguir à referência genérica deverá ser descrito, com detalhe, as várias partes do objeto, segundo uma determinada ordem, como por exemplo da esquerda para a direita ou de cima para baixo. Depois da descrição de uma determinada parte da obra, deverá ser explícita a transição para identificar a próxima área descrita, bem como a sua relação espacial com a sua antecedente. Se alguma parte for demasiadamente complexa, será melhor descrever cada elemento separadamente usando, eventualmente, uma sequência numerada.

No exemplo que se segue, a localização dos objetos num quadro estão descritos fazendo a relação com outros elementos, dando ao leitor uma compreensão da composição global do trabalho.

“… à esquerda do celeiro está uma área de pinceladas de linhas cruzadas a negro que parecem uma sombra. Por baixo do celeiro está uma máquina vermelha e cinzenta colocada desastradamente ao seu lado. As rodas grandes e o motor aparentam uma peça de maquinaria agrícola. À direita da máquina estão dois ramos de árvore angulosos e castanhos que surgem do fundo do quadro. Entre os ramos surgem disseminadas várias cenas menores …”

Pintura com o título Paisagem com máquina partida de Stuart Davis (1935)

Figura 2 – Stuart Davis (1894-1964) Norte Americano, Paisagem com máquina partida”, 1935, Guache sobre papel, 15 x 22 polegadas, doação de Virginia Rike Haswell, 1977.

Esculturas ou outros trabalhos tri-dimensionais, dependendo do seu design, precisam de ser descritos sob vários ângulos de visão. Deverá ser usada uma sequência lógica como se o observador estivesse a rodar em torno do objeto.

Na descrição, ao usar adjetivos, é melhor colocá-los após a palavra que qualificam, de modo a que o observador saiba a caraterização do objeto em si. Por exemplo, usar “os seus dedos são grandes e finos” em vez de “ele tem grandes e finos dedos”.

Recomendação Cinco: Seja Rigoroso

Uma vez que as descrições fazem parte de uma experiência de um saber global das artes, deverão ser concretas e consistentes com outras fontes de informação referentes à peça de arte em questão. Poderá ser necessário recorrer a investigação, já realizada, para identificar corretamente imagens históricas, personalidades, localizações geográficas, tipos de vestuário, género de animais, elementos arquitetónicos, etc. No entanto, as descrições deverão evitar terminologia hermética (própria das artes) ou terminologia especializada que não seja familiar à maioria dos visitantes. Por exemplo, termos sobre estilos como é o caso de “abstrato” e “realista” serão facilmente compreensíveis o que já não acontece com “Abstracionismo Geométrico” e “Académico Francês”.

Recomenda-se vivamente que o autor da descrição observe o objeto real ao fazer as notas iniciais, porque a cor e outros detalhes só assim poderão ser vistos com rigor. Quando essas notas sobre a descrição com base na peça ao vivo estiverem apuradas, poder-se-ão usar diapositivos ou fotografias para referência ao aspeto e à composição dos objetos.

Recomendações Diversas

Uma vez que os visitantes podem ter acesso, numa visita virtual, a peças de arte sem qualquer tipo de sequência, os autores das descrições visuais não deverão partir do princípio que os leitores vão seguir uma determinada ordem no visionamento. Nas descrições visuais de uma determinada peça não deverão ser feitas referências a outras peças de arte, nem a trabalhos do mesmo autor ou a outros trabalhos que façam parte do mesmo museu ou galeria.

As descrições devem evitar referenciar o género sempre que envolvam animais.

Ao descrever a vestimenta de personagens de um trabalho, pode minimizar-se a monotonia usando vários sinónimos como “tem vestido” ou “está a usar”.

Quando as descrições visuais estiverem escritas e editadas, deverão ser revistas por vários revisores (incluindo pessoas com deficiência da visão) para recolher sugestões.

Como teste final, as descrições deverão ser confrontadas no local por uma pessoa da equipa do museu ou galeria a que pertencem.

Referências

Anable, S. (2001). Accessibility Techniques For Museum Web Sites. Conference "Museums and the Web". The Dayton Art Institute. USA. Consultado a 29 de maio 2010 de http://www.archimuse.com/mw2001/papers/anable/anable.html .