A Audiodescrição em Portugal

símbolo de audiodescrição

texto de Josélia Neves.

Sempre que alguém descreve alguma coisa verbalmente estará a fazer audiodescrição. Como tal, será absolutamente impossível traçar um historial que dê conta das variadíssimas manifestações de audiodescrição possíveis ou existentes.

A audiodescrição faz-se particularmente presente em contextos em que pessoas normovisuais convivem de forma estreita com pessoas cegas ou com baixa visão. De modo espontâneo ou organizado, são muitas as audiodescrições que se fazem no seio da família, na escola, em centros ocupacionais e de recuperação, em clubes ou em manifestações culturais de diversa índole especialmente direccionada para estes públicos específicos.

As raízes da audiodescrição em Portugal encontram-se em dois fenómenos populares que marcam o presente e o passado recente da cultura portuguesa. O primeiro, é o relato de jogos de futebol, que muito continuam a contribuir para uma fruição mais completa desta modalidade. O segundo, de tradição quase extinta, é a rádio novela, que durante anos povoou o imaginário de várias gerações. Um e outro, naquilo que têm em comum com as práticas de AD actuais e naquilo que dela se separam, trazem do passado técnicas que bem podiam ainda ser aproveitadas neste domínio.

Não sendo possível desenhar, de forma completa, a história da audiodescrição em Portugal pelo facto de muito se dar de forma espontânea e/ou amadora em círculos mais restritos, traçar-se-á aqui apenas a história recente da audiodescrição nos contextos de comunicação de massas de cariz comercial e de acções em espaços públicos.

10.1. Audiodescrição em televisão

A aparição formal de audiodescrição no contexto televisivo português deu-se a 1 de Dezembro de 2003, com a exibição de A Menina da Rádio (1944, Artur Duarte) na RTP 1, complementado pela transmissão da AD pela RDP, através da Onda Média da Antena 1. Esta primeira experiência serviu para testar o sistema bi-partido (televisão-rádio), solução que passou a ser sistematicamente adoptada, pela RTP, no contexto da televisão analógica.

Posteriormente, e ainda a título experimental a RTP promoveu a transmissão de filmes com AD em mais duas ocasiões, novamente em parceria com a RDP: a 27 de Agosto de 2004, voltou a exibir o filme A Menina da Rádio e, a 3 de Setembro, A Canção de Lisboa (1933, José Cottinelli Telmo). Finalmente, a RTP promoveu uma emissão especial com audiodescrição de um episódio da série de ficção A Ferreirinha (2004), transmitida na noite de 15 de Outubro de 2004. Findo este período experimental, a RTP passou a oferecer, embora com uma periodicidade irregular, alguns filmes e séries portuguesas com AD, sempre com recurso aos serviços da RDP. Até ao presente, o trabalho de audiodescrição tem sido assegurado pela equipa de profissionais do departamento Multimédia, sendo a narração essencialmente assegurada pelas vozes de Filomena Crespo, Iolanda Ferreira, Ausenda Maria e Nicolau Breyner.

Por seu turno, a 3 de Dezembro de 2004, e em comemoração do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, a Lusomundo Gallery, da TV Cabo, apresentou com audiodescrição o clássico O Pátio das Cantigas (1942, Francisco Ribeiro).

Fazendo recurso a equipamento específico do tipo set-top box, a TV Cabo passou a oferecer AD em filmes portugueses, ao ritmo de um título novo por mês. O serviço tem-se mantido com regularidade, estando todo o trabalho essencialmente afecto a uma dupla de profissionais de reconhecido talento – o historiador de cinema, José de Matos-Cruz (guionista) e o actor Nicolau Breyner (talento vocal). A voz deste actor é apenas substituída pela voz de João Paulo Galvão em filmes em que o primeiro entra como actor.

Em cumprimento da Deliberação 5/OUT-TV/2009, aprovada pelo Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a 28 de Abril de 2009, definindo “o conjunto de obrigações dos operadores estatais e privados que permitam o acompanhamento das emissões por pessoas com necessidades especiais”, a RTP passou a oferecer com maior regularidade audiodescrição em séries de produção nacional. Embora abrangidos pela mesma Deliberação, os operadores privados não aderiram de imediato à medida, alegando falta de meios financeiros, técnicos e humanos.

Neste domínio, será de esperar que a introdução da televisão digital venha a alterar significativamente a situação vivida por altura da escrita deste guião, pois ver-se-ão ultrapassadas as principais barreiras que se colocam à televisão analógica.

10.2. Audiodescrição em DVD

O DVD surgiu cedo como uma interessante forma de fornecer audiodescrição, sem grandes custos de produção e sem necessidade de recurso a equipamentos dedicados. Quase todos os filmes de massas hoje comercializados em países anglófonos e comercializados em Portugal trazem já AD, falado em língua inglesa, numa das 37 pistas disponíveis. Tal contribuiu muito para o desenvolvimento de técnicas de audiodescrição em materiais audiovisuais, uma vez que foi possível estabelecer padrões recorrentes, ditados pelos géneros fílmicos, as normas das produtoras e os gostos dos diferentes públicos. Muitos dos guias de estilo que se conhecem (de origem estrangeira) foram criados para uso interno por profissionais a trabalhar para o mercado do DVD. Apesar do contexto global, são pouquíssimos os DVDs com soluções de acesso a pessoas com incapacidade sensorial comercializados. Os produtos mais conhecidos foram lançados pela Zon Lusomundo em 2007, O Nascimento de Cristo / Nativity Story (2006, Catherine Hardwicke), filme de imagem real dobrado para português, com guião de AD de Josélia Neves e locução de João Paulo Galvão; em 2008, Atrás das Nuvens (2007, Jorge Queiroga), filme de imagem real português, com guião de AD de Josélia Neves e locução de Maria João Novo; e em 2010, Uma Aventura no Ártico / Artic Tale (2007, Adam Ravetch e Sarah Robertson), documentário narrativo com locução em português, com guião de AD de Josélia Neves e locução de Catarina Santos. Estes DVDs têm a particularidade de, para alem da audiodescrição, oferecerem também legendagem para surdos e interpretação em Língua Gestual Portuguesa (LGP). Estas funcionalidades podem ser activadas de forma isolada ou em conjunto, permitindo que pessoas com diferentes necessidades possam ver o mesmo filme em simultâneo. Têm ainda menus áudio, permitindo, assim, que pessoas cegas utilizem os DVDs de forma autónoma.

10.3. Audiodescrição em cinema

Não havendo, à data, qualquer espaço em Portugal apetrechado com equipamento de audiodescrição, existe apenas registo de alguns ensaios em sessões especiais, agendadas para o lançamento dos DVDs atrás citados.

Há conhecimento de outras sessões de carácter privado e/ou experimental em Associações e Escolas, com produtos comerciais ou com materiais desenvolvidos por investigadores ou amadores com interesse na área.

10.4. Audiodescrição no teatro e nas artes performativas

Por razões semelhantes às que se dão no cinema, acrescidas da falta de formação específicas nesta área e do grau de dificuldade da criação dos serviços de acessibilidade ao vivo, são poucas as peças de teatro, bailados ou concertos a subir ao palco com soluções de comunicação alternativa, e muito menos com audiodescrição.

Para além dos exercícios académicos ou amadores realizados um pouco por todo o país, assinala-se a oferta de audiodescrição numa peça de teatro, feito ao vivo pela audiodescritora brasileira, Graciela Pozzobon, na peça “Chovem amores na rua do matador”, adaptada a partir de um texto de Mia Couto e de José Eduardo Agualusa, encenada pelo grupo Trigo Limpo Teatro ACERT, apresentada na Mostra Internacional de Teatro de Oeiras – MITO, a 12 Setembro de 2009.

Esta seria a primeira de várias outras experiências desta natureza, sempre levadas a cabo com um carácter excepcional, pois a AD em teatro continua a ser uma realidade pouco usual em Portugal. A inclusão de AD em espectáculos ao vivo, (programas de variedades, de dança, concertos de musica, …) surgiram também, de forma experimental, em finais de 2010 e inicio de 2011. A 3 de Dezembro introduziu-se AD na I Gala da Inclusão, no Cine Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, e a 9 de Dezembro de 2010, deu-se a audiodescricão ao vivo do espectáculo “O Depois”, levado ao palco do Teatro S. Luiz, em Lisboa, pela CM – companhia Integrada Multidisciplinar, no âmbito do Inarte – Encontros Internacionais Inclusão pela Arte, promovido pela Associação Vo’arte. A primeira audiodescrição de concertos pop-rock viria a acontecer, em junção com interpretação em língua gestual portuguesa para Surdos, a 25 de Março de 2011, no concerto de os The Gift, no Tivoli, em Lisboa. Em termos técnicos, a audiodescrição, nas artes performativas, exige equipamento que permita levar a AD apenas aos espectadores que a queiram ouvir. A oferta profissional deste serviço passará sempre pela existência de condições físicas e técnicas adequadas – cabine insonorizada e equipamento especializado de captação, transmissão e recepção de voz – realidade ainda inexistente no contexto das salas de espectáculo nacionais.

10.5. Audiodescrição nos museus

Área em franca expansão, graças ao empenho de profissionais dos serviços educativos de vários museus e à acção pró-activa dos responsáveis pelas acessibilidades no IMC – Instituto dos Museus, na Rede Nacional de Museus e Conservação e do GAM – Grupo para a Acessibilidade nos Museus.

Perante a falta de equipamentos de áudio/videoguia, são muitos os museus que organizam visitas guiadas ao vivo, proporcionando audiodescrições espontâneas ou preparadas, materiais impressos em formato alternativo (Braille, impressão aumentada e/ou relevo), bem como a possibilidade de tocar em peças e desenvolver actividades de exploração do espólio museológico.

Os primeiros anos do seculo XXI poderão ficar marcados como momento de viragem na história da comunicação acessível no contexto audiovisual e cultural em Portugal. A segunda década marcará, sem dúvida, a generalização da oferta de audiodescrição, pois são muitos os projectos em fase embrionária ao tempo da escrita deste guião.

fonte: Josélia Neves. (2011). Guia de audiodescrição imagens que se ouvem. 1ª edição. Lisboa: INR, IP; Leiria: IPLeiria. Capítulo 10 – Brev(íssima) história da audiodescrição em Portugal. pág. 69-74. ^